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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Estamos colhendo momentos difíceis: a pesquisa clínica cresceu exponencialmente, mas o discernimento de sua utilização na prática, não. 

Os motivos para isso acontecer em nosso meio não importam, pois a época para se adubar o solo, semear, regar, plantar e colher outro tipo de momento, já passou. Foi há mais de 20 anos, quando o movimento de Medicina Baseada em Evidência (MBE), antevendo esses períodos caóticos, propôs a aquisição de um idioma capaz de interpretar e traduzir a linguagem da pesquisa para a prática, equilibrando os interesses dos diversos participantes da assistência à saúde, e não produzindo dano aos pacientes. Apesar disso, muitos estão lutando para enfrentar os tempos modernos. Mas, o que estão fazendo? 

Estão reagindo... E reação é uma forma passiva de ação, pois a ação está nas mãos daqueles que induzem à reação, e como tal, podem modular suas ações produzindo as reações que lhes são de interesse. Quais as formas mais utilizadas de reação? 

1ª) Desqualificação: desqualificação deliberada e infantil da evidência, impedindo sua utilização na prática; 

2ª) Credibilidade: marketing individual, negando a real prática baseada em evidência; 

3ª) Padronização: padrões arbitrários de “sim” e “não”, baseados nas evidências da economia, procurando massificar o que sempre será individual: o paciente; 

4º) Minimização: conceito de que a MBE é sinônimo de busca na Internet, reduzindo a complexidade do uso diário da pesquisa na prática; 

5º) Ignorância: MBE caracterizada como teórica, reforçando a distância entre academia e vida real; 

6º) Sedução: estímulo a quem economiza, reduzindo a possibilidade da evidência entrar em suas mentes; 

7º) Articulação: hipertrofia de equipes comerciais, atendendo às previsões dos donos da ação; 

​8º) Independência: criação de espaços próprios de atenção, transformando-se em atores sem script baseado em evidências. 

Se a reação é a solução, por que hoje a assistência à saúde permanece atolada no caos dos conflitos e da inequidade? E se reagir não é o ideal, qual a agenda para se colher os frutos de uma assistência equilibrada? 

Agenda de tradução da pesquisa para a prática: 

1º) Saber tudo sobre a evidência disponível, inclusive conhecer sua força; 

2º) Conhecer tudo sobre o paciente individual, inclusive sobre suas expectativas; 

3º) Ouvir o médico, que pode contribuir com sua experiência e visão; 

4º) Entender que os resultados da pesquisa são específicos para uma subpopulação, e não são extrapoláveis; 

5º) Aceitar que o paciente é um indivíduo, e que as ações não podem ser massificadas; 

6º) Entender que os resultados da pesquisa têm uma quantidade de benefício e dano diferente de 100%, fugindo do “sim” e “não”; 

7º) Entender que os resultados aplicados na prática têm um nível de incerteza de sua reprodutibilidade, e por isso devem ser monitorados; e 

​8º) Ter coragem para definir com a sociedade o que é o benefício, e a que custo. 

Devemos reduzir gradativamente as reações, aumentando as ações da agenda de tradução da pesquisa para a prática... O paciente será novamente o centro.