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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Em outubro de 2012, tive a oportunidade de escrever, para a revista Universo, artigo intitulado de “CAUSALIDADE E FORÇA DA EVIDÊNCIA”. Entendo que, devido aos acontecimentos no país, o momento é muito propício para abordarmos novamente esse tema. 

Quando tratamos do tema “causa e efeito” imediatamente deveria vir à nossa mente, o conceito de uma ação produzir uma reação. Em saúde, a ação pode ser um ser vivo (ex: vírus, bactéria), uma prescrição (ex: medicação), uma orientação (ex: dieta, mudança de hábitos), um procedimento (ex: cirurgia, fisioterapia), um exame solicitado (ex: radiografia, ultrassonografia), uma medida de promoção ou de prevenção (ex: educação, vacinação). A reação por sua vez, poderá ser uma infecção, a melhora da dor, a perda de peso, evitar um infarto, fazer um diagnóstico, evitar uma doença, respectivamente. 

As formas usuais de se estabelecer “causa e efeito” podem ser: 

A temporalidade: a causa precede o efeito (ex. vírus e doença); 
A força: o risco do efeito é muito maior com uma causa do que sem (ex: pacientes com vírus têm muito mais doença do que pacientes sem);
Dose resposta: maiores exposições à causa implicam em maior ocorrência do efeito (ex: maiores exposições virais produzem mais doença do que menores exposições);
Reversibilidade: redução na exposição seguida de redução na ocorrência do efeito (ex: erradicação da transmissão viral seguida de desaparecimento dos casos); 
Consistência: o conceito da causa relacionada a um determinado efeito estabelecido pela observação repetida, por diferentes pessoas, em locais, circunstâncias e tempos diferentes (ex: a presença da mesma doença em pacientes expostos ao mesmo vírus em países diferentes e no passado); 
Plausibilidade biológica: a causa e um efeito têm sentido de acordo com o conhecimento biológico da época (ex: a presença do vírus em tecidos de pacientes doentes);
Especificidade: um efeito é específico de uma causa (ex: todo paciente exposto ao vírus tem a doença); 
Analogia: relação de causa e efeito foi estabelecida previamente para​​​ uma situação clínica e exposição semelhantes (ex: vírus da mesma família, que produz manifestações semelhantes). 
Considerar os princípios de causalidade, antes de fazermos ou divulgarmos afirmações precipitadas, protege a todos da adoção de verdades, por meio do frágil conceito da associação, no qual ação e reação são constatadas em um mesmo ponto no tempo (ex: a presença do vírus em pacientes com a doença já instalada), reduz o desperdício de tempo e recurso na geração de informação científica descritiva (ex: o relato de casuística como forma de impor a associação), e finalmente impede o desencadeamento de consequências sistêmicas, que muitas vezes são superlativas, desastrosas, desnecessárias, e até terroristas. 

​É natural a preocupação e pressa de se confirmar, ou se afastar, precocemente, a relação entre uma causa e um efeito novo, principalmente quando este último é grave. Mas, quando a quantidade de exposição e de efeito é grande, esse objetivo, em pouco tempo, pode ser atingido. É uma questão de disciplina, prioridade, estratégia e recurso. 

Então, caminhando da geração da hipótese à confirmação da causa e efeito, podemos: 

1. Analisar um grupo de pacientes com doença e um grupo sem doença, na proporção de 1:9, respectivamente, quanto à presença da exposição ao vírus, no passado ou no presente; 

​​2. Seguir pacientes expostos e não expostos ao vírus, na proporção de 1:1, para no futuro medir o efeito (doença). 

​Os modelos são simples, e necessitam ainda de alguns cuidados, como: amostra de pacientes calculada e representativa; o controle de outras variáveis presentes que possam interferir ou mesmo produzir o efeito, como outros vírus; métodos apropriados (específicos) para definir a exposição; e a clara expressão da magnitude e precisão dos resultados. 

O método científico, ao gerar a evidência consistente e forte, pode proteger o sistema de saúde e seus pacientes de inverdades de vaidades, política ou de interesses econômicos. Mas, para isso, depende das comunidades e lideranças científicas e assistenciais, através da educação sistemática, da coragem de se posicionar, e do compromisso com seu papel.​​