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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Economia, gastos, satisfação do cliente, sinistralidade, judicialização, glosas, multas, acordos comerciais, contratos, aquisições, “merchandising”, parcerias de marketing, recursos disponíveis, insolvência, dívidas ou número de adesões são alguns dos termos que fazem parte do glossário, geralmente utilizado em sistemas de saúde, para medir desempenho. 

Observando essas palavras, podemos perceber que poderiam ser utilizadas (e o são) como expressão para medir desempenho em inúmeros setores não relacionados com a atenção à saúde. 

Do ponto de vista empresarial, não haveria como se contrapor a essa ideia de quantificar resultados, se não fosse a existência de uma variável única, foco da produção de vacinas ou antídotos contra a doença: o paciente. 

​Ao se estimar o sucesso, retirando o paciente do numerador da equação, o sistema será gestado por uma série de distorções, ruídos e distrações que desviam e centram o foco nas regras e normas de mercado, expondo-se a ser medido e tratado, inclusive pelas vidas, como produtores e vendedores, cujo principal objetivo é o ganho e o lucro. 

​Com isso, tudo o que se fala ou escreve fica sujeito ao conceito de conflito de interesse, que para ser combatido, demanda consideráveis recursos na propaganda, no “lobby” e na política. 

​A competividade inter e intra sistemas é aberta e desenfreada, o que impede a criação de redes homogêneas, equilibradas e sustentáveis. 

​O que foi descrito acima pode ser denominado de paradigma, e atualmente podemos dizer que entramos em uma fase pós paradigmática, na qual, após a identificação da presença danosa de todas essas anomalias de manejo do sistema, criou-se espaço para se utilizar formas mais específicas de cálculo e estimativa de quantidade e qualidade de atenção à saúde. 

​​Todas estas medidas (algumas antigas, outras novas) são mais espe​cíficas​, pois estão centradas no paciente. Medir qualidade e quantidade, então, é medir resultados. Medir resultados é ponderar o benefício, o dano, incluindo a qualidade de vida das vidas que devem ser seguidas e acompanhadas ao longo da aquisição ou manutenção de sua saúde, ou da instalação, resolução ou piora de sua doença. 

Imaginemos então, a linha do tempo do cuidado a uma vida adoecida: 

Tempo 0 – Adoecimento. 

Tempo 1 – Atendimento médico com diagnóstico e reconhecimento do risco da história natural. 

Tempo 2 – Tomada de decisão compartilhada com estimativa da redução do risco a ser obtida (benefício), e do aumento do risco de eventos adversos (dano). 

Tempo 3 – Seguimento do paciente, em curto prazo, confirmando ou não a estimativa de benefício e dano. 

Tempo 4 – Mudança na conduta, se necessário, ou manutenção ou alta. 

Tempo 5 – Prevenção, promoção e educação para redução do risco de novos eventos. 

Tempo 6 – Seguimento do paciente, em longo prazo, detectando a ocorrência de novos eventos. 

Tempo 7 – Avaliação da qualidade de vida durante o seguimento. 

Como medir o desempenho do sistema cuidador durante essa trajetória, pensando em uma população semelhante, assistida no período de um ano? 

Tempo 0 ao 4 – Número necessário para tratar para um benefício (NNT) e Número Necessário para produzir um dano (NNH), multiplicado pelo custo individual do tratamento e pelo número de pacientes atendidos no período – Custo/ benefício.

Tempo 5 a 7 – Ganho de QALY com o cuidado da população no período dividido pelo dispêndio de recurso com o tratamento – Custo utilidade. 

Se utilizarmos as medidas descritas para quantificarmos a qualidade da assistência, poderemos sustentar estratégias, programas e a reavaliação de rumo​s. Mas, o mais importante é que, devido à explícita, pública, clara e aplicável evidência dessas estimativas, o sistema será medido não pelo que diz que faz, que gostaria de fazer, ou pelo que tem sido obrigado fazer, mas pelos seus resultados obtidos e registrados. 

​O paciente medirá o sistema por meio da qualidade de vida, benefício e dano das decisões. O sistema educará seus médicos, profissionais de saúde, gestores, auditores, utilizando parâmetros de qualidade, quantidade e de custo. O mercado terá que se adaptar aos parâmetros de custo/benefício e custo/utilidade, como balizadores da dispensação de recursos. 

​​Em um ambiente cada vez mais caro, com número geometricamente crescente de inovações, mudanças rápidas na prevalência das doenças e com modificações lentas, mas patentes na longevidade da população, é imperativo e medir a qualidade da vida, o bem-estar, a funcionalidade, a quantidade de benefício e de dano, entre outras muitas medidas centradas no paciente. 

Assim, o sistema de saúde cuidador não será escolhido (medido) por falta de opções melhores ou acordos mercadológicos dissociados da opinião e expectativa do paciente, ou ainda pelos investimentos em “merchandising”, mas será porquê há forte evidência de que é o Melhor​.