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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Se o médico opina com(o) leigo, o juiz opina com(o) médico

De quem deveria ser o dever de orientar qual caminho seguir na tomada de decisão, frente a um determinado paciente? Quem está habilitado para informar à sociedade qual a melhor conduta no cuidado em saúde? Em quem os olhos dos pacientes estão fixos, na esperança de ouvir e sentir, de maneira sólida, quais as opções diagnósticas ou terapêuticas, seguras e eficazes? Esses mentores, tutores e guias estabelecem estratégias centradas no paciente? Consideram os valores de todos interessados, no cuidado, ao opinarem? Criam condições favoráveis de credibilidade e confiança, que permitam perceber, de que não há nenhum outro interesse envolvido, além do benefício do paciente? Qual o papel atual desses guias no sistema de saúde? O sistema pode ser cúmplice na criação de estratégias centradas no paciente? Como o sistema pode auxiliar na escolha do caminho a ser seguido, considerando, mas não impondo, a variável custo, na equação? 

Tecnicamente, os elementos de linguagem, envolvidos nestas questões, podem ser resumidos através da seguinte equação de VALOR =​​

VALOR = ​​DESFECHO [BENEFÍCIO (MBE + QUALIDADE) – DANO (SEGURANÇA)]/ CUSTO (DINHEIRO + TEMPO + REPLICAR)​​

Cada variável da equação pode ser definida de maneira mais ou menos opinativa, na dependência de “quanto” a ciência é incorporada na prática. Se os pareceres ou desejos acríticos, ou a notícia e propaganda financiadas, ou a análise de custo limitada a material e procedimento, se impõem ao VALOR da informação científica, então a linguagem utilizada pelo sistema estará constantemente sujeita a todo tipo de interesse. E nesse cenário, o idioma falado será o analfabeto midiático, político, jurídico, econômico, social, e profissional, no qual só é ouvido quem fala mais alto. 

Mas é possível que essas variáveis de lingua​​gem sejam expressas, por exemplo, em probabilidades de risco ou em anos de qualidade de vida: o real VALOR. 

​​O VALOR para o cuidado aos pacientes, sustentável cientificamente, depende primeiro de parâmetros bem estabelecidos, e pouco mutáveis, de benefício e de segurança, baseados em evidência forte, produzida em tempo longo e suficiente de seguimento. Esses parâmetros devem ser disseminados e compartilhados, constantemente, em processos de educação, divulgação e implementação, ultimamente condicionado à qualidade da atenção prestada. 

​O segundo componente de VALOR, fundamental para assegurar um cuidado sustentável, também pode ser baseado na evidência gerada com a mensuração dos recursos, e do consumo de tempo, necessários para cada processo de atenção, e na capacidade de sua reprodução por todo o sistema. 

​Se todos, mas principalmente o médico, e o sistema de saúde no qual está inserido, exercitarem e refletirem sobre o uso da linguagem baseada no conhecimento dos elementos do VALOR, ninguém substituirá seu papel de informar e auxiliar o paciente na tomada de decisão, de conduzir a sociedade no estabelecimento das relações de custo efetividade, de combater os interesses econômicos de poucos, e de garantir as necessidades de muitos. 

​​Quem determina o idioma, controla o diálogo, e o entendimento entre os envolvidos na assistência à saúde, e como consequência, o desperdício é apropriadamente enfrentado, através da redução do uso excessivo de procedimentos (principalmente em diagnóstico), no tratamento da subutilização de procedimentos necessários e indicados, e na correção das estratégias e rumos adotados pela coordenação e gestão do sistema. 

Uma vez em uso, a discussão sobre VALOR pode ser ampliada, abordando questões como duração (p.ex. tempo de sobrevida ganho), tamanho (p.ex. número de pacientes tratados para um benefício) e segurança (p.ex. nível de eventos adversos tolerados), desejados pelo paciente, mas equilibrados pelo seu entendimento, e do seu médico, de que os recursos a serem consumidos são compartilhados universalmente, e devem ser relativizados frente a outros pacientes, com níveis variados de tamanho de benefício, que podem ser muito superiores, e ao mesmo custo, que o seu. 

O analfabetismo, que determina decisões simplistas, e favoráveis àqueles impositores do conceito de que fazer é sempre melhor do que não fazer, a qualquer preço, em nome da vida, mesmo sem qualidade ou limite, só poderá ser combatido pela linguagem médica baseada em VALOR.​