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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Escrever em momentos graves, enfrentados pelo Sistema de Saúde é às vezes difícil, principalmente porque envolve uma sensação de “ser teórico”, ao invés de “ser prático”. 

Mas, citando Fernando Pessoa: “o que mais as pessoas fazem, não é ajustar a prática à teoria, senão, ao contrário, a teoria à prática”, eu persisto em pensar em atitudes que uma vez adotadas poderão colaborar com a prática, minimizando os efeitos de um país sem governança em saúde. 

​Então, vamos falar de uma atitude imprópria e desnecessária, descentrada do paciente, mas que atrai, seduz, engana, distrai e satisfaz: a futilidade. 

​Podemos definir​ futilidade como todas as ações em saúde, que desprovidas de evidência de benefício, promovem e estimulam a tomada de decisão baseada no atendimento do desejo do “cliente”. 

O cultivo da experiência “Walt Disney”, a prática da medicina defensiva, e paradoxalmente, a ausência da decisão compartilhada nutrem esse desejo. 

A cultura da futilidade, como sinônimo de boa prática, em todos os níveis da atenção à saúde, gera pressão e aumento de custo no sistema, atendendo principalmente aos interesses de uma competitividade irresponsável e burra. 

EXPERIÊNCIA “WALT DISNEY”
Serviços de oferta de saúde internacionais (não os nacionais) têm procurado melhorar o cuidado, procurando “fazer as pessoas felizes”, sem necessariamente faze-las ficar melhor do ponto de vista médico. 

​​Entre as medidas tomadas por esses serviços, está o uso sistemático de avaliação da satisfação do “cliente”, como forma de orientar o reembolso e de avaliar o desempenho de suas equipes. 

Os itens de avaliação são geralmente subjetivos e graduam a experiência do paciente no ambiente hospitalar. Podem ser: gentileza, mordomia, qualidade da comida, barulho, en​​tretenimen​to, estacionamento com manobrista, música ao vivo, salas VIP para filiados aos “programas de fidelidade” etc. 

O foco da avaliação de qualidade, então, está na velocidade com que um enfermeiro atende ao apertar de um botão sem avaliar se a solicitação era medicamente necessária; na ausência de um determinado patê no cardápio, sem considerar que a falta da obediência ao jejum levou a mais um dia de permanência hospitalar; na falta da televisão de plasma, sem avaliar que a internação prolongada é consequência de infecção hospitalar. 

Estimula-se uma cultura na qual os pacientes passam a ter expectativas irreais com relação aos cuidados necessários, como também mínimo conhecimento quanto aos resultados esperados. Os pacientes mais satisfeitos com seus médicos têm custos mais elevados de saúde e de prescrição, sendo também mais propensos à hospitalização. 

Atender simplesmente a expectativas, como exames ou medicações específicas desejados ou focar no conforto personalizado, na busca de experiências positivas e da tomada de decisão baseada na concordância, aumenta o risco dos pacientes receberem menos ou mais do que necessitam, colocando uma pressão sobre o sistema, para fazer e ter, sem poder ou dever. 

O conceito de “experiência do paciente” tem sido descaracterizado de pacientes para “clientes”, de enfermeiros para autômatos, no qual esses últimos são submetidos a treinamentos para melhor atender ao “cliente”, seguindo “scripts”, perdendo sua espontaneidade e autenticidade e sendo obrigados a concordar com a cultura de que o “cliente” tem sempre razão. 

Mas os hospitais também podem oferecer um atendimento deficiente e ainda obter altos índices de satisfação do paciente. Eles não melhoram a saúde, mas a fazem parecer melhor. Não é de se estranhar que uma das principais empresas de consultoria, atualmente aconselhando hospitais para “construir uma cultura de excelência de saúde” é a Walt Disney Company. 

A “MEDICINA DEFENSIVA” PARA MINIMIZAR O LITÍGIO
O médico pode acreditar que o uso sistemático e abusivo da tecnologia oferece a melhor proteção contra litígio. Quanto mais exames e maior a prescrição, maior a satisfação do paciente. Ledo engano. Os pacientes podem se sentir “intimidados” em realizar exames e procedimentos que não desejam fazer. E independentemente das expectativas e desejos, à medida que mais exames desnecessários são solicitados, surgem mais resultados falso-positivos. Por semelhante modo, quanto maior o número de prescrições fúteis, maior o risco de eventos adversos evitáveis.

AUSÊNCIA DE TOMADA DE DECISÃO COMPARTILHADA 
Paradoxalmente, há uma forte tendência médica de minimizar, ou não mencionar, o risco de intervenções, tratamentos ou procedimentos, na tentativa de favorecer a aderência e reduzir os conflitos. Determinam abertamente a realização de exames e tratamentos baseados em sua experiência ou hábito, ignorando a opinião de seus pacientes. Acreditam que a sua própria recomendação clínica oferece melhor proteção médico-legal do que uma abordagem baseada em informar aos pacientes e na tomada de decisão compartilhada. 

​​​​Pode-se supor que o litígio, como sinônimo de conflito ou discordância, é desencadeado principalmente por resultados negativos ou adversos inesperados. Mas, muitos outros fatores estão ligados ao embrião dos conflitos: a qualidade da relação médico-paciente; a consideração e respeito pelas preferências do paciente; má comunicação e o “envolvimento” (ou falta de envolvimento) dos pacientes no cuida​do; e nos processos de tomada de decisão. A incapacidade de envolver os pacientes na tomada de decisões, considerando seus interesses e preferências podem incitar os doentes a iniciar processos judiciais. 

FUTILIDADE NA VIDA DOS PACIENTES, DOS MÉDICOS E DO SISTEMA DE SAÚDE
Os atores da futilidade lidam com os pacientes, médicos, profissionais e sistema de saúde como meio, e não como fim. E o fim é competir e vencer a qualquer custo. 

Os elementos do meio, não sendo prioridade, passam a lutar entre si pelas sobras, não percebendo que o melhor meio de retornarem primeiro o paciente à condição de fim e na sequência os demais elementos, é através do combate sistemático, de todos à futilidade, onde o cliente não existe, só existe o paciente. 

O combate se faz através da adoção de um sistema que decide tendo por base a evidência científica, cujos médicos e profissionais de saúde tomam decisões compartilhadas com o paciente. 

Devemos entender que o atendimento às necessidades primordiais de saúde têm de ser estendidos a todos, o que só poderá ser atingido se os excessos e as desnecessidades forem abolidas da prática diária.