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 Editor de Conteúdo

Por Wanderley Marques Bernardo

O significado genérico do termo “disruptivo” pode ser de algo que interrompe uma ação, geralmente produzindo desorganização ou alterações intratáveis. 

Entretanto, na área de inovação, esse termo foi acunhado pelo professor de administração em Harvard Clayton M. Christensen na forma da “teoria da inovação disruptiva”, na qual basicamente um “inovador” percebe uma área de
mercado negligenciada por um bem-sucedido pioneiro nessa área, o qual devido ao sucesso, dedicou-se ao seu público de consumo cada vez mais exigente, esquecendo-se daqueles menos exigentes, aumentando qualidade e custos¹. 

Então, o inovador “abocanha” os consumidores negligenciados por meio de um processo geralmente lento e silencioso de ocupação, que a princípio não concorre com o “pioneiro”, pois seu produto é revolucionário e transformador e, portanto, diferente de tudo antes produzido, mas que pode com o tempo atrair os exigentes consumidores do “pioneiro”, anulando-o e jogando-o no passado. Ao substituí-lo pode recomeçar o ciclo que abrirá espaço para um novo inovador. 

Na saúde, um bom exemplo de inovação disruptiva é o que aconteceu, e acontece, entre a cirurgia cardíaca e os tratamentos endovasculares (coronariano, aneurismático, valvar etc.), sobretudo na última década²⁻⁶: 

• Na primeira fase: a tecnologia inovadora tem sua indicação inicial para os casos mais graves, em número menor, cujos resultados pós-operatórios são piores, no​ qual a cirurgia geralmente é contraindicada;
• Na segunda fase: surge a pergunta “mas se a inovação é eficaz nos casos mais graves, porque não a utilizar nos pacientes regulares e menos graves (em maior número), afinal apesar de seu custo (em curto prazo), é segura e eficaz, além de ser menos invasiva, o paciente se recupera mais rápido, com menor tempo de hospitalização, reduzindo assim o custo (em longo prazo), garantindo sustentabilidade ao sistema de saúde?”
• Na terceira fase: a inovação torna o pioneiro uma exceção, para os casos que complicam ou que não respondem mais à tecnologia nova;
• Na quarta fase: as anomalias são identificadas com o uso da inovação, estabelecendo-se melhor quais os pacientes realmente se beneficiam;
• Na quinta fase: a inovação disruptiva atrai para si a necessidade natural de avanço, criando mercados internos de aprimoramentos que passam a concorrer entre si, produzindo geralmente resultados clínicos mínimos;
• Na sexta fase: os diversos agentes envolvidos na assistência à saúde, na dependência de seu envolvimento com o mercado, de seu poder, de sua ética, da utilização de parâmetros científicos e da regulação, incorporam ou não com sustentabilidade e discernimento as inovações;
• Na sétima fase: a educação especializada sofre impacto migratório, na qualidade e formas de treinamento, e na estrutura de saúde disponível. 

Porém o mercado tem utilizado o conceito de “inovação disruptiva” de modo impróprio e centrado no produto, ignorando que esse conceito traduz um processo que segue etapas, que respeita o tempo e sobretudo o paciente. Vejo um sistema de saúde refém dessa distorção conceitual na prática, trazendo consigo a definição simplista de “disrupção” com suas consequências de desorganização, de alterações intratáveis e de falência econômica do sistema. 

Como um produto novo, não “disruptivamente” inovador, pode produzir tanto estrago? Produzir um acúmulo interminável de opções para a mesma situação clínica? Levar a um gasto de tempo infindável de reações inúteis?

Determinar conflitos que invariavelmente serão judicializados? Ser objeto do desejo dos pacientes na expectativa inverídica que serão curados ou que ficarão melhores? 

Infelizmente a resposta é simples: ignorância e desconhecimento, falta de governo e de regulação, interesses espúrios de mercado, corrupção pessoal e sistêmica, falta de estratégias de planejamento e de prioridades, distância entre o cuidador e o cuidado, exploração midiática e publicadores descompromissados com as consequências, pela vulnerabilidade e fragilidade dos pacientes e de seus médicos. 

A inovação disruptiva em saúde é muito benvinda, mas deve ser centrada em significativos (não estatisticamente falando) efeitos benéficos e seguros aos pacientes, que por sua vez devem ser medidos e demonstrados por meio de evidência científica forte, a qual pode e deve controlar e definir a pauta dos interesses de mercado. 

Pensar em saúde baseada em evidências é também pensar em algo disruptível, pois coloca informações novas ao
usuário, auxiliando na realização de escolhas; transforma os serviços de saúde em consumidores de evidências fortes e efetivas em que o principal ator do processo de cuidar é beneficiado, o paciente; muda a lógica, orientando a prática, gerando benefícios aos serviços de saúde, atendendo à realidade local e tornando-se no objetivo primordial da formação de grupos geradores e gestores da evidência.¹⁻⁷​

Referências 
1. What Is Disruptive Innovation? Clayton M. Christensen, Michael E. Raynor, and Rory McDonald. Disponível em: https://hbr.org/2015/12/what-is-disruptive-innovation.

2. Wong KA, Hodgson L, Garas G, Malietzis G, Markar S, Rao C, et al. How can cardiothoracic and vascular medical devices stay in the market? Interact Cardiovasc Thorac Surg 2016; 23: 940-948. PMID: 27521178.

3. Berlin DB, Davidson MJ, Schoen FJ. The power of disruptive technological innovation: Transcatheter aortic valve implantation. J Biomed Mater Res B Appl Biomater 2015; 103: 1709-15. PMID: 25545639.

4. Vaporciyan AA, Yang SC, Baker CJ, Fann JI, Verrier ED. Cardiothoracic surgery residency training: past, present, and future. J Thorac Cardiovasc Surg 2013; 146: 759-67. PMID: 23870155

5. Cohen DJ. Cardiothoracic surgery at a crossroads: the impact of disruptive technologic change. J Cardiothorac Surg 2007; 2:35. PMID: 17686151.

6. Sergeant P. The future of coronary bypass surgery. Eur J Cardiothorac Surg 2004; 26 Suppl 1: S4-6. PMID: 15776841. 

7. Bernardo WM. Políticas públicas de saúde e a evidência científica. Einstein (São Paulo) 2017; 15 (4): vii.