Comando para Ignorar Faixa de Opções
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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

A tomada de decisão compartilhada é o processo no qual médico e paciente interagem em uma decisão de saúde, depois de discutirem as opções, os benefícios e malefícios e também quando consideram os valores, preferências e o contexto nos quais o paciente está inserido. A medicina baseada em evidências (MBE) e a tomada de decisão compartilhada (TDC) são ambas essenciais para cuidados de saúde de qualidade, mas a interação entre essas duas abordagens ainda não tem sido devidamente considerada. 

O paciente informado, além de tomar decisões mais acertadas, aumenta​ sua aderência, reduz a necessidade do litígio, melhora os resultados e também pode auxiliar indiretamente ao sistema de saúde no controle de práticas indevidas, não baseadas em evidências. 

​Os abusos, as distorções e a má prática são reduzidos drasticamente quando as propostas ou indicações, expressas ao paciente, estão devidamente (baseadas em evidências) e explicitamente acompanhadas de seus riscos, benefícios ou ausência de benefício e, principalmente, quando as expectativas e o contexto do paciente são considerados. ​

​​Apesar da evidente conexão entre a decisão compartilhada e a medicina baseada em evidência, a incorporação dos valores, das preferências e das circunstâncias do paciente é provavelmente o passo mais difícil e ainda mal delineado, que recebe de todos, o mínimo de atenção. Isto leva a uma crítica comum de que a MBE ignora os valores e as preferências dos pacientes. Realmente, a MBE tem tido foco predominante sobre os métodos e recursos para facilitar a localização, avaliação e síntese das evidências, e muito menos foco em discutir esta evidência com os pacientes. 

A intersecção entre as habilidades de comunicação centradas no paciente e a MBE, no bom atendimento ao paciente, é um mecanismo pelo qual as evidências podem ser explicitamente levadas para a consulta e discutidas, minimizando a tomada de decisão impositiva, dogmática e muitas vezes imprópria. Mesmo que​os médicos tentem incorporar as preferências do paciente nas decisões, eles às vezes erroneamente tentam adivinhá-las. Se a tomada de decisão compartilhada não incorpora o conjunto de evidências envolvidas, as preferências que os pacientes expressam não podem se basear em estimativas confiáveis sobre os riscos e benefícios das opções, e as decisões resultantes não serão verdadeiramente informadas. 

Os canais de comunicação com os pacientes devem ser urgentemente criados, desenvolvidos e valorizados, para que também programas de educação da população, que está sendo assistida, façam parte da prioridade estratégica dos sistemas. Além disso, treinamentos para o desenvolvimento médico em tomada de decisão compartilhada devem ser desencadeados em conjunto com a formação em medicina baseada em evidência, consolidando uma política centrada no paciente e sustentada pelo diálogo e a informação científica consistente e compreensível. 

​Mas, não se fala em educação como um processo voluntário, opcional e secundário, mas como um método de se estabelecer muito mais do que uma cultura do ético e correto, mas de definição de parâmetros sistêmicos e sistemáticos, públicos e explícitos, de boa prática, cuja função primordial é proteger os pacientes de uma prática dissociada da evidência.

​Todos sabemos sobre o objetivo de uma educação baseada em evidência: preparar o profissional de saúde para informar ao paciente sobre os benefícios e malefícios de cada uma das opções para a tomada de decisão, o que deve ser precedido pelo conhecimento profundo sobre a evidência disponível e atual. 

​Na educação para a tomada de decisão compartilhada oferecemos a esse profissional preparado, o treinamento de como oferecer as opções de escolha, justificando-as e expressando os benefícios e danos, de como checar as preferências do paciente, de como checar sua compreensão e concordância, de como prover suporte para decisão do paciente, e como equilibrar preferências, evidências e decisão. 

​Formas explícitas de confluirmos esses elementos são o desenvolvimento e implementação de diretrizes de prática clínica. Sabe-se que a maioria das diretrizes deixam de considerar as preferências dos pacientes ao formular suas recomendações, e apesar de algumas diretrizes recomendarem que se deve conversar com os pacientes sobre as opções, estas não fornecem nenhuma orientação sobre como fazer isso, e como comunicar a evidência de uma forma que os pacientes entendam. A tomada de decisão ​compartilhada pode ser fortemente recomendada nas diretrizes, alinhando as opções em suas vantagens e desvantagens, suprindo a incerteza na evidência, quando esta prejudica a determinação de uma abordagem claramente superior, e equilibrando benefícios e riscos, principalmente quando esse equilíbrio depende da ação do paciente (ex.: adesão à medicação, monitoramento e dieta). 

​Parece utópico, ou mesmo teórico, a ideia de termos uma assistência à saúde, que o tempo todo e com todos, considera a opinião do paciente na tomada de decisão baseada em evidência. Mas, “utopia” é a desculpa da acomodação, desconhecimento e falta de fé, principalmente, em uma situação, em que o obrigatório, ético, e obviamente o melhor para o paciente e o sistema, é peremptoriamente ignorado, em nome de regras de mercado, que nada tem oferecido além de instabilidade, conflitos, insatisfação e caos. ​

Referências 
Hoffmann TC, Montori VM, Del Mar C. The connection between evidence-based medicine and shared decision making. JAMA 2014; 312:1295-6. PMID: 25268434. 

n G, Frosch D, Thomson R, Joseph-Williams N, Lloyd A, Kinnersley P, et al. Shared decision making: a model for clinical practice. J Gen Intern Med 2012; 27: 1361-7. PMID: 22618581.​