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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Existem muitas partes interessadas na área da saúde, como a indústria, a mídia, os publicadores, os sistemas gestor e prestador de serviços, os quais têm como modelo estratégico de decisão a exclusão do paciente e dos profissionais de saúde, que são meio e não fim. 

O artigo 196 da Constituição brasileira afirma que “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitá​​​​rio às ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação”. Mas, apesar disso convivemos com a inequidade e os conflitos entre as diversas partes, responsáveis pelo aumento na judicialização na saúde em cerca de 1000% nos últimos anos. 

Entretanto, a população mundial já percebe a influência da informação contraditória, gerada por esses diversos interessados (ciência dos interesses), na produção de condutas diferentes para as mesmas situações clínicas, ou no estímulo acrítico ao consumo. E nesse ambiente de caos, já se clama pela ciência baseada em evidência divulgada pelas diversas fontes de informação, que incluem principalmente os publicadores, seus editores e revisores. 

​O sistema de saúde italiano, em 2014, tendo como parâmetro a evidência científica, desperdiçou € 7,69 bilhões em “overuse”, € 5,13 bilhões em fraudes e abusos, e € 3,08 bilhões em “underuse”. E certamente, nenhum dos excessos acontece sem o protagonismo dos profissionais de saúde, que se dobram às pressões sobretudo ao “overuse” como: nos conflitos de interesse, na provocação da judicialização, na medicina defensiva, pela medicalização da sociedade, pelas expectativas dos pacientes, pelas inovações e, infelizmente, pelo financiamento e incentivos. 

​A informação relacionada à saúde transborda nas redes virtuais, sendo seu conteúdo responsabilidade de quem escreve e de quem segue, os quais utilizam livremente essa informação na tomada de decisão. Mas, nesse ambiente democrático, as consequências e os efeitos não têm responsáveis, e muito menos controle de qualidade, no qual a evidência científica adotada pelos profissionais de saúde deveria ser o padrão homogêneo e público de decisão.

Particularmente, o profissional de saúde pode erroneamente entender a evidência científica como complicada, ou como uma receita de bolo, ou pior, como algo que se adapta às suas limitações pessoais, como a dificuldade com o idioma inglês, ou com números e estatística. 

Fundamentalmente, Medicina Baseada em Evidência (MBE) traz como princípios: “quanto maior a simplicidade, maior a efetividade”, “todas as decisões trazem consequências ao paciente”, “MBE é propriedade dos que duvidam”, “é necessidade daqueles que buscam as respostas”, “que criticam a informação que adotam”, “que aprendem a sintetizar os níveis de benefício e dano das opções”, “e também, comunicar esses níveis incluindo o nível de incerteza”, “que seguem seus pacientes para se certificar que a evidência é efetiva fora do papel”, e finalmente, “que conseguem equilibrar seus interesses com os interesses dos outros”. 

​Nada disso tem futuro se o cuidado do profissional de saúde não for centrado no paciente, mas para isso, há necessidade de transparência, confiança e credibilidade. Transparência, para que o ato do cuidado seja acompanhado da maior quantidade possível de informação ao paciente com relação a todas as opções, seus riscos e benefícios. Confiança, para que a travessia do paciente pelos riscos do tratamento ou do diagnóstico seja sem arrependimento. E credibilidade, para que o paciente não seja enganado com promessas falsas. 

A disseminação pública e social da evidência é uma forma efetiva de qualificar pacientes e profissionais em decisões corretas, mas essa disseminação enfrenta algumas barreiras, como a falácia ignorante e irresponsável e o desconhecimento que produz dano aos pacientes (“over” e “underuse”) e ao sistema de saúde (desperdício e desorganização). Em contrapartida, o conhecimento, por meio da ciência, habilita profissional e paciente a combaterem crenças e mitos e vencerem a indústria da saúde da moda e do marketing, gerando equidade e equilíbrio. 

​A solução para que a evidência chegue ao paciente é médica, e os médicos devem dispor de informação confiável, mas para isso precisa também haver a participação do sistema de saúde com investimento na criação e manutenção de núcleos de MBE, com a apropriação do conceito de benefício líquido, e com garantia de uso e monitoramento. 

Além disso, o médico deve habituar-se a utilizar evidência forte; buscar uma prática homogênea em seu meio de atuação; não atrapalhar, forçando inovações e gerando demandas centradas em seus interesses; não disseminar dano, gerando a necessidade de se defender o óbvio; buscar o máximo esclarecimento de seus pacientes, fazendo diferença no uso e comunicação explícitos, e com clareza da evidência disponível. 

Evidência científica é propriedade e responsabilidade médica, mas também é liberdade para que o médico faça o que tem de fazer, no tempo certo, o tempo todo e para todos. 

​​E para que as mudanças que estão ocorrendo ao nosso redor não progridam algemando impropriamente ainda mais o relacionamento do médico com o paciente, não pode haver timidez e medo na inserção da ciência na base da medicina e de suas ações diárias.