Comando para Ignorar Faixa de Opções
Ir para o conteúdo principal

 Banner com Menu - Web Part

 Editor de Conteúdo

​Por Wanderley Marques Bernardo

Meu filho Diego Bernardo é “correspondente” nos EUA. Há já algum tempo, enviou-me uma reportagem publicada no Associated Press, de título: “Doc groups issue list of overused tests, therapies”, sobre uma iniciativa denominada “Choosing wisely” (Escolhendo com Sabedoria), formada por uma coalizão entre o American Board of Internal Medicine Foundation (www.choosingwisely. org) e sociedades médicas americanas, que produzem listas de exames ou tratamentos, comumente usados em excesso. Há uma lista em particular elaborada pela “American Academy of Family Physicians”, também publicada com o título: “The “Top 5” Lists in Primary Care: Meeting the Responsibility of Professionalism”, no Arch Intern Med 2011;171:1385-90, e outra lista com mais 6 recomendações, divulgadas no site, totalizando o “Top 10” das reflexões para nosso breve artigo: 

1. Não realizar exames de imagens para dor lombar nas primeiras seis semanas, a menos que sintomas de gravidade estejam presentes. 

2. Não prescrever antibióticos para sinusite aguda leve a moderada, exceto se a duração de sintomas for > 7 dias, ou se houver piora, após melhora inicial. 

3. Não use a densitometria óssea para osteoporose, em mulheres com menos de 65 anos, ou homens com menos de 70, sem fatores de risco. 

4. Não solicitar eletrocardiogramas anuais (ecg) ou qualquer outra triagem cardíaca para pacientes de baixo risco, sem sintoma. 

5. Não execute o papanicolau em mulheres com menos de 21 ou que tiveram uma histerectomia para doença não-neoplásica. 

6. Não agendar induções de trabalho de parto ou cesárea eletiva, sem indicação médica, antes de 39 semanas de idade gestacional. 

7. Evite a indução de trabalho de parto eletivo, sem indicação médica, entre 39 e 41 semanas, a menos que o colo do útero seja considerado favorável.

8. Não rastreie estenose da artéria carótida em adultos assintomáticos. 

9. Não pesquisar câncer cervical em mulheres com mais de 65 anos de idade que tiveram rastreamento adequado prévio, e que não estão em risco elevado. 

10. Não pesquisar câncer cervical em mulheres com menos de 30 anos de idade, com teste de hpv, ou em combinação com a citologia. 

1ª reflexão: São cenários clínicos relevantes e prevalentes: lombalgia, sinusite, osteoporose, doença cardiovascular, cesárea e câncer de colo do útero; 

2ª reflexão: São “universais”, à medida que estão presentes na rotina médica de todo o mundo, incluindo os abusos e desvios de conduta; 

3ª reflexão: São antigos, crônicos, e ainda não resolvidos, pois apesar de toda evidência disponível, continuam sendo largamente praticados, apesar do alerta; 

4ª reflexão: São negligenciados pelo sistema, que educado em uma “medicina descentrada do paciente”, ignora o número e risco dos cuidados desnecessários; 

5ª reflexão: São negligenciados pelo sistema, que seduzido pelo baixo custo unitário, ignora o alto custo global, decorrente da alta prevalência de “normais”; 

6ª reflexão: São negligenciados pelo sistema, que imantado pelas “novas tecnologias”, retirou a muito tempo de sua agenda de prioridades tais filigranas; 

7ª reflexão​: São listas de questões, mais do que contraindicações, que os pacientes e médicos devem considerar, para a tomada de decisão compartilhada; 

8ª reflexão: São fruto da iniciativa privada, não responsável pela gestão do sistema, que no temor do “cada um faz o que quer”, assume papel que não é seu. Poderíamos gerar uma lista com mais reflexões, e certamente, você também tem as suas. São situações clínicas comuns e condutas cujo excesso e abuso são da prática “universal”. A essas condutas podem ser somadas milhares de outras em uso, e plenamente evitáveis. Mas, para finalizar, tenho duas últimas reflexões: 

9ª​ reflexão: Quais os motivos? Desconhecimento da evidência? Automatismo? Prática defensiva? Interesses econômicos? Falta de profissionalismo? 

10ª reflexão: Quem é o responsável? O médico? O sistema de saúde? Os pacientes? As faculdades de medicina? A indústria? Ninguém? 

Sabemos definir a melhor evidência, podemos compartilhar com muitos​, devemos estimular o pensamento no profissionalismo responsável, e alertarmos o Sistema de Saúde para sua intransferível responsabilidade de cuidar de sua população, felizmente, cada vez menos passiva.