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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Há anos milhares de estudos tem sido produzidos, e atualmente divulgados em bases de informação científica virtuais, e cada vez menos por meio de versões impressas. Em Medicina o número diário de publicações aumenta geometricamente, entretanto sua qualidade não segue a mesma crescente proporção. Estima-se que 2% dessa informação tem níveis de incerteza aceitáveis, podendo seus resultados serem utilizados na prática. 

​São estudos em laboratório, animais e humanos, comentários, editoriais, revisões opinativas, relato e séries de casos, estudos comparativos de observação, estudos comparativos com experimentação, guidelines, consensos, e mais recentemente revisões sistemáticas e meta-análises. Cada tipo de expressão de informação médica tem em si mesma um nível de incerteza maior ou menor, à medida que esta é mais ou menos opinativa. 

​​Para as evidências que são científicas, e portanto contém nível mínimo aceitável de incerteza, existem elementos que permitem avaliar criticamente seus métodos e resultados, e consequentemente suas conclusões. Para identificar esses elementos existem instrumentos específicos, desenvolvidos para sua fácil utilização, mas que requerem compreensão e muitas vezes muito trabalho para sua adequada aplicabilidade. Muitos fogem disso. 

​​Para avaliarmos criticamente uma revisão sistemática com meta-análise precisamos ter feito a nossa própria busca crítica da evidência, uma vez que será impossível avalia-las adequadamente ao utilizarmos instrumentos de avaliação crítica, como o AMSTAR, os quais requerem de nós esse trabalho ao respondermos, por exemplo, seu “ITEM 3”: Houve uma busca da literatura apropriada? 

​Muitos leitores deste artigo, se chegaram até este ponto, talvez não continuem a leitura, por ter a expectativa de um conteúdo teórico e não prático. Mas peço paciência e persistência, pois entenderão que o “ITEM 3” ilustrará como o desconhecimento pode produzir dano na “ponta”, considerando que esse instrumento crítico (AMSTAR) tem sido impropriamente utilizado pelos “reguladores” de ​nosso sistema para “regular”. 

A padronização do que deve ser utilizado no cuidado aos pacientes do sistema de saúde deve ser feita pelos seus responsáveis através da revisão crítica da evidência disponível. Na incapacidade de realizar suas próprias revisões, na pressão política de produzir rapidamente uma grande quantidade de recomendações, e para atender suas conveniências, esses grupos recorrem ao consumo sistemático acrítico de revisões sistemáticas. 

Mas qual o segredo de ser acrítico, favorecendo seus interesses? Ignorando, desconsiderando, desvalorizando ou omitindo o “ITEM 3”, que é a expressão direta dos trabalhos selecionados e incluídos na revisão, e consequentemente a expressão de seus resultados e conclusões. Quem procura com erro encontra com erro, e quando erra perde, e quem perde não sabe o que perdeu, e considerando o que se perdeu os resultados mudariam.  

Hoje o impacto da regulação, principalmente de procedimentos diagnósticos e terapêuticos caros, tem sido uma preocupação de todos os envolvidos no cuidado, privando os pacientes de necessidades fundamentais e expondo os cuidadores a gastos e futilidades desnecessários. Se os grupos responsáveis pela regulação não fazem suas buscas e seleção da evidência, estes não tem como avaliar o “ITEM 3” de ninguém como apropriado ou não. 

​Respondendo às 3 questões do título deste artigo: 

1. Como deve ser feita a avaliação crítica da evidência? Iniciando pelo “ITEM 3” na busca crítica, reprodutível, e própria da evidência necessária para orientar as condutas; 

2. Quem deve fazer? Aqueles que são competentes e educados para executar o “ITEM 3”; 

3. Para que essa avaliação? Para quem quer. Para que se conheça a evidência resultante da aplicação do “ITEM 3” e esta seja utilizada com discernimento na prática médica diária. 

Se você faz o que quer porque está com a “caneta”, ou fecha acordos porquê é “negociante”, ou flexibiliza porquê é “político”, você não precisa e nem deve se esconder atrás da “evidência”, pois na verdade você não a respeita. Mas, se há o desejo de priorizar o “ITEM 3”, em detrimento da “caneta”, do “negócio” ou da “política”, você tem um genuíno interesse em cuidar honestamente da “evidência” em nome do benefício dos pacientes.​​​​​