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 Editor de Conteúdo

Por Dr. Wanderley Marques Bernardo 

Muito esforço, por muitos de nós, tem sido desprendido sistematicamente e como regra, tendo como foco exclusivo o bem-estar dos pacientes, sobretudo do Brasil. São milhões de médicos e profissionais de saúde ocupados, dedicados e abnegados que agem de diversas formas e condições diferentes, mas que se tornam semelhantes pois estão centradas no maior benefício e no menor dano a todos esses pacientes. Por si só o reconhecimento e o respeito por esse esforço, geralmente solitário, garantiria o pré-requisito básico na consecução de um sistema de saúde íntegro, respeitável, transparente e baseado em evidência. 

Mas sabemos que uma pressão excepcional tem sido desproporcionalmente e constantemente exercida, contrapondo-se a esse esforço, para produzir desânimo e abdicação, sedução e escravidão, engano e confusão, mentira e desperdício, desrespeito e sedição, e no fim produzir um sistema de saúde corrompido e dependente das mesmas fontes de pressão que o corromperam. 

As consequências são agravadas pela conversão de formadores de opinião, que não só cederam às pressões, como também passaram a exercê-las. Aparentemente essas fontes brotam e fluem à mercê de um interesse de mercado egoísta e desorganizado, mas na verdade há método nessa pressão: 

1. Demanda excessiva estimulada de consumo dos produtos da indústria de saúde, destacando e distorcendo os benefícios, minimizando os danos e promovendo o sobre diagnóstico; 

2. Fraqueza nos fundamentos, na transparência e na qualidade da pesquisa clínica publicada ignorando sistematicamente a presença de vieses e desqualificando o conceito de força da evidência; 

3. Recomendações de diretrizes clínicas que na ausência de sustentação por metodologia clara, consistente, explícita e reprodutível, atendem aos interesses comerciais ou de economia de seus autores convertidos; 

4. Evidência inacessível àqueles que mais a necessitam seja porque não considera os valores, necessidades e expectativas dos pacientes, seja porque simplesmente são de difícil acesso; 

5. Forma de medir de maneira imprópria a performance e a responsabilidade dos profissionais de saúde estão sendo utilizadas no sistema, nas quais há estímulo ou incentivos na forma de retribuição financeira para fazer muito ou para fazer pouco em atenção aos interesses econômicos do agente estimulante, que além da explícita prova de incompetência e desconhecimento, ignora as preferências e os desfechos que importam aos pacientes que estão sob seus cuidados; 

6. Estímulo a uma cultura de doença e paradoxalmente de imortalidade, incluindo a criação de novas e desconhecidas doenças ou reduzindo os valores diagnósticos com consequente aumento artificial de sua prevalência, acompanhado de suas respectivas soluções terapêuticas; 

7. Desintegração e desaparelhamento técnico das agências, órgãos, associações ou instituições reguladoras em saúde, reduzindo sua autonomia, agilidade e credibilidade, aumentando a insegurança e a incerteza em suas decisões, o que inclui a migração de sua legítima responsabilidade para elementos que procurando defender o direito dos pacientes defendem a pressão. 

Este cenário é conhecido de todos e, devido a enormidade de seu tamanho, geralmente produz uma sensação de desesperança e impotência. Muitos que desejam a integridade devolvida à assistência de saúde são por “eles” imobilizados temporariamente ou até mesmo definitivamente. Entretanto há muitos que com redobrado esforço, olhando para os pacientes, perseveram e sem saber, ou sabendo, exercem uma constante, mas não inócua ética contrapressão. Congratulações a todos, e dicas de metodologia de trabalho baseada em time: 

1. Procurem prescrever utilizando as condutas sustentadas por evidência forte; 

2. Ouçam menos e leiam mais, acessando diretamente a informação científica atual; 

3. Avaliem criticamente as recomendações das diretrizes de especialidade antes de usá-las e, se possível, participem de seu desenvolvimento; 

4. Divulguem a evidência forte, inclusive com seus pacientes e detonem a evidência muito fraca; 

5. Resistam a modelos de retribuição por condutas baseadas sabe-se lá no que, e preservem seu tempo com seu paciente, investindo em uma tomada de decisão compartilhada e baseada em evidência; ​

6. Combatam o mito da criação de doenças e, em amor, esclareçam as famílias e pacientes que estão enfrentando os limites da vida e da medicina; 

7. Apoiem nossas instituições que estão empenhadas na proteção de nossos pacientes. Há alto RISCO OCUPACIONAL nesse trabalho de time, mas o enfrentamento é sustentável na certeza de que é a única opção para a criação de um sistema de saúde íntegro.